Cavernas sociais: intolerância, violência e politicagem na internet

14 Março, 2014 | @aurineybrito

Estão cada vez piores as consequências do uso mal educado das redes sociais. Usuários dominados pela ignorância, intolerância, e agressividade, tomam conta do que deveria ser um dos fortes instrumentos de contrapoder ao oligopólio midiático.

Lutamos séculos pela conquista das nossas liberdades e não estamos conseguindo usá-las para o benefício coletivo, ao invés disso, alguns se auto-intitulam gestores da moralidade social e promovem movimentos instigadores da vingança privada, de pressão ao judiciário, de pressão ao legislativo, de pressão à outros usuários que não aderem à corrente etc.

Nesse contexto, muitas injustiças estão sendo cometidas, desde ofensas à honra das pessoas, agressões físicas, prisões de inocentes, penas desproporcionais, criação de leis simbólicas, até suicídios provocados pela insistência e propagação do conteúdo ofensivo sem compaixão, que tem feito muitas vítimas por não suportarem a fama negativa.

Hoje acordamos com a notícia de uma senhora, casada, mãe de duas filhas, moradora do Guarujá, que, após ter sua imagem divulgada em redes sociais como a responsável por sequestrar crianças para a prática de rituais de magia negra, foi capturada e linchada até a morte por moradores da sua região.

Nem vou mencionar a culpabilidade da vítima. Não me interessa agora se ela era culpada ou inocente, ela está morta. O que importa como isso tudo começou, o efeito de um julgamento precipitado, de uma postagem agressiva e irresponsável, de um comentário incentivador da maldade, de um compartilhamento mal intencionado, quem é você para julgar nas redes sociais?

Foi difícil, mas já passo a concordar com Stephen Kanitz quando ele diz que não estamos na Era da Informação, estamos na Era da Desinformação, em razão de tanto lixo e ruído sem nenhum rigor epistêmico que se encontra em sites, blogs, redes sociais etc.

Assim como essa senhora do Guarujá, muitas outras pessoas têm sido vítimas de violência e ameaça nas ruas, em razão de movimento de intolerância iniciado nas redes sociais. Você certamente poderá ser a próxima. Já pensou você sendo injustamente acusado de estupro e indo parar num presídio? Isso nos faz lembrar do ditado de um velho amigo nosso: “Não faça com os outros o que não gostaria que os outros lhes fizessem.”

Usuários sem a menor capacidade de autodeterminar-se intelectualmente, apenas repetem o que os seus “amigos” dizem, sem terem o menor sentimento ou raciocínio sobre o fato. Transformam-se em juízes da imoralidade alheia sem se preocuparem com a avaliação dos seus próprios atos. Isso porque são simplesmente ignorantes ou, o que é pior, possuem interesse na exposição negativa de determinada pessoa, geralmente com interesse político ou econômico.

Vivemos na verdade numa Era de indignação seletiva e midiática. Ora não vai ter copa, ora buscamos a última figurinha do álbum da copa, ora somos macacos, ora não somos mais, ora abominamos a corrupção, ora trocamos nosso voto na eleição, ora é por 20 centavos, ora nem sei por que é, mas “tô curtido o movimento”. Nós temos liberdade de pensamento, manifestação, expressão, e mudar de opinião e sinônimo de humildade. Mas antes de mudar a sua, forme uma raciocinando, e não se deixando levar pelos ignorantes e interesseiros que nos abastecem de informações todos os dias.

Agir sem pensar, especialmente com vingança, intolerância e violência é uma característica que nos iguala aos períodos pré-históricos. Não aja como um homem ou mulher desses tempos, pense... E depois poste. Se não consegues viver assim, saia das redes sociais, você pode matar se decidir transformá-la na sua caverna.

Não concorde ainda com o que foi dito nesse texto. Pense primeiro... E depois forme sua própria opinião. Se gostar, poste, se não gostar, critique com educação e bons fundamentos.


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